A cobra do Walmor

Walmor Barbosa Martins foi prefeito duas vezes de Jundiaí(1969-1973 e 1989-1992). O município lhe deve muitas obras da mais alta importância, algumas visíveis e outras invisíveis. Entre as visíveis, podemos indicar a construção da avenida Samuel Martins, marginal do córrego da Colônia,a Antonio Segre, a Ferroviários, a continuação das obras de despoluição da bacia do rio Jundiaí, e entre as invisíveis a fase pioneira do planejamento, feita por Odair Schioser, engenheiro especializado na construção de estruturas de navios e ex-fuzileiro naval da Marinha dos Estados Unidos. Também podemos citar o prefeito, Ary Fossen, que como secretário das finanças de Walmor, em sua primeira gestão, implantou a informática na prefeitura, possibilitando agilizar inúmeros processos, tais como o IPTU, as taxas de água, e ampliar as receitas em novas frentes operacionais.

O lado engraçado de Walmor pouca gente conhece. Apelamos para a memória de Tarcísio Germano de Lemos, que se lembrou de muitas histórias engraçadas do ex-prefeito. Mas a principal, a que fez o povo rir e até hoje é motivo de gracejos ao Walmor, que repele essas insinuações, é a história da cobra.

O fato aconteceu na administração de Omair Zomignani. Walmor sempre estava à procura de alguma coisa para atormentar a vida do prefeito. Em l963, segundo a memória de Tarcísio, Walmor resolveu fazer um discurso, criticando o prefeito, que não tomava conta direito da cidade, que havia lixo por toda parte e que a Câmara deveria tomar atitudes enérgicas. O líder do prefeito a tudo retrucava, destacando que Walmor era muito brincalhão, um rapagão fanfarrão, que deveria ter bom senso. Na tribuna Walmor foi aumentando o seu tom de crítica. Lá pelas tantas, certo dia quando o bate-boca atingiu o auge, eis que ele tira de uma bolsa uma cobra, jogando-a em cima do líder do prefeito, que caiu da cadeira. A sessão foi imediatamente suspensa. Os vereadores saíram correndo e da tribuna o orador dizia. “Olha aí a prova de que a cidade está suja”.

Mesmo caído, o líder do prefeito retrucava: “é uma trama, uma ruína moral, uma irresponsabilidade”. Alguns vereadores subiram em suas mesas.A cobra se escondeu embaixo de alguma mesa ou cadeira. O líder do prefeito ainda dizia: “ela fugiu com vergonha do nobre orador”. E Walmor ainda de pé na tribuna retrucava: “trouxe para vocês a prova mais irrefutável”. A cobra sumiu do plenário, mas muita gente ainda comenta que sumiu com vergonha daquela situação insólita na história de nosso legislativo.

Há poucos dias perguntei ao Walmor sobre a história da cobra. Ele olhou para o chão, naquele seu jeito característico de mineiro desconfiado, ergueu a cabeça e disse: “você não vai colocar isso no jornal, vai?” Para logo depois destacar que a amizade que o prende ao Dr. Tarcísio é um dos elos mais importantes que teve ao longo de sua vida. “Se você publicar, eu desminto”, mas com a voz lírica, própria de um grande orador.

“A Câmara daqueles tempos tinha um ardor diferente. Os vereadores procuravam levar a sério seus mandatos. E isso tem que ser levado em consideração. Ninguém ganhava nada para trabalhar. Acho que o ardor cívico desapareceu”, destacou para nós Nelson Chacra, que foi vereador daquela época. E adiantou “ a Câmara tinha um núcleo de grandes oradores, destacando-se o Tarcísio, Walmor, Antonio Galdino, o professor Nelson Figueiredo, Flávio Ceolin e tantos outros”.