A força negra

Como teria se comportado Jundiaí ao longo da escravidão dos negros? É sabido que antes da chegada dos africanos, praticava-se a escravidão indígena, condenada pelos padres jesuítas e por isso expulsos de São Paulo em 1.640, mesmo ano em que os primeiros casebres de barro e sapé eram erguidos em Jundiaí.

A grande extensão do território jundiaiense, que ia até as fronteiras de Minas Gerais, pressupõe a existência de inúmeras fazendas com milhares de escravos. Frequentemente havia fugas de escravos e os fazendeiros colocavam anúncios até em jornais, dando prêmios a quem reconduzisse os fugitivos às suas fazendas. Um desses anúncios, na Gazetta do Rio de Janeiro, dizia o seguinte:

“Fugiu há dois meses da fazenda de Francisco de Moraes Campos, da Freguesia de Belém, município de Jundiaí, um escravo de nome Lourenço, com os seguintes sinais: idade 30 anos mais ou menos, estatura regular, rosto comprido, bonito de feição, cabelos grenhos, nariz atilado, boca e beiços mais que regulares, sendo o beiço inferior mais grosso e vermelho, boa dentadura, cor retinta, pouca barba, fino de corpo, tem a coroa da cabeça pelada de carregar objetos, pernas finas, pés palhetas e pisa para fora, é muito ladino, é roceiro e muito bom tropeiro. Gratifica-se bem a quem pegar o dito escravo e paga-se todas as despesas que tiver feito até a ocasião da entrega.”

Antes da entrada do café em Jundiaí, por volta de 1.800, a população era muito itinerante. Muitos historiadores localizaram jundiaienses em Minas Gerais, na região do Tijuco, e também em Cuiabá, por ocasião da intensa garimpagem do ouro. Nas Minas de Cuiabá foram contados 30 mil escravos trabalhando em condições ásperas e rudes. Houve ocasião em que as condições de trabalho eram tão duras, que milhares de escravos fugiram. Os donos deles resolveram contratar capitães do mato para trazê-los de volta. Na impossibilidade deles se entregarem pacificamente, poderiam ser mortos e seus pares de orelhas deviam ser entregues aos seus senhores. Um desses capitães do mato, de passagem por Jundiaí, contou que tinha em seu poder 3.969 pares de orelhas de negros fugitivos e que cada par valia 6 mil réis.

Ninguém mais discute a importância dos negros na formação econômica do Brasil. Mais do que suas contribuições como mão-de-obra valente e forte, a maioria deu sua vida ao País. Para se ter idéia da dimensão dessa contribuição, somente pelo porto do Rio de Janeiro desembarcaram cerca de quatro milhões de africanos, todos transformados em escravos, fora os que morriam na viagem. Calcula-se que 28 por cento morriam nos navios por doenças e desnutrição e eram jogados no mar. E isso sem contar os desembarques nos portos do Nordeste, principalmente Salvador.

As fazendas jundiaienses de açúcar, aguardente e rapadura foram sendo substituídas por café e por volta de l885, cinco ferrovias cortavam o município, todas transportando café e de lambuja outras mercadorias e passageiros. Neste mesmo ano, calculava-se que somente no território de Jundiaí eram produzidos mais de 50 mil arrobas de café e 11 mil de açúcar, também embarcados para o exterior ou para São Paulo. Por ocasião da abolição da escravatura, em 1888, os fazendeiros, por orientação do Visconde de Parnaíba, filho do Barão de Jundiaí, tinham substituído quase toda a mão-de-obra africana por trabalhadores italianos, que também seriam submetidos a situações desumanas nas fazendas e nas cidades.

A contribuição dos africanos foi tão excepcional, que hoje 52 por cento da nossa população é constituída por negros, mulatos e pardos, provavelmente formando a mais alvissareira civilização dos trópicos.