A greve de 1906

Fato marcante na vida de Jundiaí, a greve dos trabalhadores de 1906 ainda não foi assinalada na cidade com um marco histórico de relevo, que deixasse para as futuras gerações a lembrança memorável da primeira insurreição operária do Brasil. Recentemente diversos leitores nos pediram esclarecimentos sobre o assunto, uma vez que não existem levantamentos históricos precisos. Há na História de Jundiaí, livro que foi publicado em 1997, um registro importante.

“A morte de cinco anarquistas em Chicago, nos Estados Unidos, no dia 1º de maio e que foi transformado no Dia Mundial do Trabalhador, foi, duas semanas depois, comemorado em Jundiaí com um encontro de trabalhadores no Teatro Polytheama. Entre seus palestrantes estava Edgard Leuenroth, famoso tribuno da capital. Duas semanas depois explodia a greve na Companhia Paulista de Estradas de Ferro, marcando o início do movimento operário no Brasil de forma definitiva.

O crescimento da Companhia Paulista havia levado a empresa a propor um sistema de previdência social aos operários, mediante o desconto obrigatório para a Sociedade Beneficente – base da futura lei da previdência social em todo o país – e reduzir a carga de trabalho para cinco dias. Na época não se ganhava o domingo, dias de folga ou férias. A redução total de 30% sobre os salários foi o motivo principal da eclosão da greve.

Os protestos contra o inspetor geral da companhia, Francisco Monlevade, foram divulgados pela imprensa como uma agitação organizada em Buenos Aires.Os trabalhadores paralisaram o tráfego de trens entre o interior e a capital. NO distrito de Campo Limpo Paulista os trabalhadores paralisaram um trem com um contigente militar. Apenas dois dias após a greve da Paulista, também os tecelões da Fábrica de Tecidos São Bento entraram em greve de solidariedade.

A convocação do governo aos operários da Santos-Jundiaí, Sorocabana e Mogiana não teve efeito e estes aderiram ao movimento. Diretores da Liga Operária foram ameaçados, a sede da Federação Operária em São Paulo foi invadida e os boletins foram impedidos de circular. Em uma passeata na rua São Bento, os operários Ernesto Gould e Manuel Dias, entre outros, morreram. Na repressão policial, no dia 30 de maio, um batalhão da Força Pública dissolveu um comício à bala em São Paulo.Diante da enorme repressão, alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco se declararam em greve de solidariedade e o movimento ganhou vulto na capital. Uma passeata de operários na praça da Sée foi dissolvida pela polícia. O confronto foi tão violento que no dia 31 de maio todo o comércio de Jundiaí cerrou suas portas.

Enquanto o governo republicano aprovava a lei de expulsão dos estrangeiros do Brasil, a greve novamente voltou em maio de 1907 para reivindicar oito horas de trabalho diário como limite. O movimento operário conseguiu suas maiores vitórias em 1917 e 1919, ganhando com o Partido Comunista que ocupou o espaço dos anarquistas anteriores.

Em 1923, o advogado e deputado federal jundiaiense Vail Chaves apresentou um projeto de Previdência Social, que foi aprovado pelo Congresso Nacional, dando início à Previdência Social no Brasil, que veio, na década de 1930, com o governo Getúlio Vargas, ganhar status de lei nacional.

O pioneirismo do movimento operário de Jundiaí é o fato mais marcante na vida sindical do Brasil e mostra o quanto estava politizada a classe dos trabalhadores. Na década dos anos de 1950 e início de 60, Jundiaí foi também um importante centro de decisões operárias, uma vez que os trens que passavam pela cidade faziam praticamente o abastecimento da capital e também do interior. Parar o sistema ferroviário em Jundiaí era o acontecimento mais importante em qualquer greve. Hoje, esses acontecimentos estão sob o tapete da história conservadora. Mas, sem dúvida, torna-se imprescindível demonstrar às novas gerações que o município gerou idéias que hoje beneficiam todos os brasileiros.

Esses mártires de 1906 só são lembrados em seus túmulos no Cemitério do Desterro. Estão como desterrados da história oficial, porém, marcados para sempre na vida do município. Em 2006, a Unicamp fez significativa homenagem a esses operários. Historiadores de todo o Brasil se interessaram pelo assunto. Nós, como jornalistas, avivamos os acontecimentos. Agora cabe aos acadêmicos fazerem o perfil histórico e aos políticos tomarem providências para que este acontecimento seja comemorado com toda seriedade que ele merece.

Há poucos dias ouvi de um deputado federal a frase: “os aposentados não conseguem atingir seus objetivos de reajustes de benefícios, porque não fazem greve.” Imediatamente contestei e informei a ele que a primeira greve de trabalhadores no Brasil teve como causa principal a implantação da Previdência Social. Ele demonstrou surpresa e eu disse que o Governo Federal poderia se surpreender com a capacidade de mobilização dos trabalhadores pela causa da Previdência Social.