Mistérios e destinos de Jundiaí

Não vai longe o tempo em que a fundação de Jundiaí esteve cerca por mistérios.

De uma certa forma, ainda está. Isto porque até agora não foram esclarecidas as dúvidas sobre os verdadeiros personagens de sua fundação.

Há duas versões: a primeira que o município foi fundado por Petronilha Antunes e Rafael de Oliveira. A segunda versão envolve seu filho, Rafael de Oliveira, o Moço, que teria sido, juntamente com sua esposa, Maria Ribeiro, os fundadores.

Durante muitos anos, aceitou-se a versão de que Petronilha Antunes e Rafael tinham sido os verdadeiros fundadores. E isso teria acontecido em 1.615, tanto que a data está assinalada na Bandeira de Jundiaí.

Em 1960, começou a circular uma outra versão. Os verdadeiros fundadores tinham sido 250 pessoas, 38 descendentes diretos de portugueses, e cerca de 220 índios, que saíram da Vila de São Paulo. Aqui chegaram em 1640. Existem citações históricas da data da fundação me 1639, porém, neste ano Rafael e Maria Ribeiro casaram-se em São Paulo. Vieram sob a chefia de Rafael de Oliveira, o Moço.

Existem testamentos de Rafael de Oliveira, o Velho, destacando seus pertences, seu sítio e seus filhos. Rafael de Oliveira, por diversos documentos encontrados por pesquisadores, foi citado como bandeirante. Em 1615 estaria com uma Bandeira no sul do País; se ele estava com esta Bandeira, não estaria em Jundiaí.

Então, quem seria Petronilha? Ela teria sido esposa de José de Camargo Antunes, comerciante em São Paulo. Foram encontrados dois ramos da família Antunes; um da própria Vila de São Paulo; outro de Santana do Parnaíba. Teria vindo a Jundiaí com Rafael de Oliveira, o Velho, seu compadre. Aí entram duas outras versões: Rafael teria assassinado seu marido e fugido para os Sertões de Jundiaí com sua comadre. Aqui teriam iniciado a construção da Vila de Jundiaí.. A segunda versão envolvendo o casal surgiu recentemente. Ambos estariam envolvidos na famosa briga entre as famílias Pires e Camargo.

Mas o mistério continua. Segundo o jornalista Benedito de Paula Certain, existem documentos que provam que mesmo antes da chegada de Rafael de Oliveira, Pedro Jorge e Francisco Gaia estariam formando povoamentos além do Pico do Jaraguá. Provavelmente, Certain referia-se a um povoamento de garimpeiros na região de Cajamar, onde teria sido descoberta uma grande quantidade de ouro e provocado o enriquecimento extraordinário da família Sardinha.. Também a referência de Certain tem sido colocada em dúvidas.

Certain teria ainda afirmado que Rafael de Oliveira (1572-1648) era vereador na pobre Vila de São Paulo no século XVll e participou de diversas bandeiras, rumo a Santa Catarina em 1615 e a Minas Gerais por diversas vezes. No entanto, documentos provam que Rafael de Oliveira contraiu núpcias em 1616 com Catarina D’Horta na mesma Vila de São Paulo, onde faleceu. Se ele estava envolvido com bandeiras e casamento, fica evidente de que não teria fugido para Jundiaí em 1615.

Se foi bandeirante, Rafael de Oliveira teria cometido o crime de bandeirantismo, o que seria punido pela legislação daquele tempo e principalmente pelos padres Jesuítas, do Páteo do Colégio, que não admitiam a escravização de índios.

Segundo a tradição oral dos antigos habitantes de Jundiaí, haveria no frontespício da igreja matriz a indicação de que Rafael de Oliveira e Petronilha tinham sido os fundadores da Vila. Segundo essa mesma tradição oral, o registro estaria no Livro do Tombo da Cúria Metropolitana em São Paulo. Mas como a Cúria pegou fogo em 1848, não existe a comprovação.

Duas outras tragédias sobre sua história marcaram o município. O historiador Pedro Taques escreveu um livro sobre as famílias que fundaram Jundiaí, denominando-o Memórias de Jundiaí. Há várias referências sobre esse trabalho do escritor. Parece que foi perdido no terremoto que destruiu Lisboa em 1757, quando ele tentava obter o reconhecimento de seus trabalhos junto ao rei. Outra documentação perdida estava em poder do sacristão da igreja matriz. Morreu sem que seus descendentes e as autoridades a encontrassem.

Há também uma versão atual, segundo a qual Rafael de Oliveira, o Velho, indicou ao seu filho o local onde deveria ser construída a Vila de Jundiaí. Ali existiria um antigo casebre construído por Rafael de Oliveira nos idos de 1625.

As versões não acabam aí. Marcada por ter sido fundada por dois criminosos, fugidos da Vila de São Paulo, moradores de Jundiaí trataram de destruir os antigos documentos. Naqueles tempos antigos, Jundiaí era citada como cidade dos amantes e dos amásios. Portanto, era preciso tirar essa versão da memória das pessoas. O caminho foi a destruição dos documentos.

Hoje, a versão mais aceitada, mesmo porque comprovada documentalmente, Rafael de Oliveira, o Moço, e sua esposa, foram os verdadeiros fundadores. Aqui tiveram seus filhos, a prole cresceu e ambos contribuíram decisivamente para solidificação de sua fundação.

O ano de 1640 é marcado em São Paulo por excepcionais acontecimentos. O primeiro deles foi a expulsão dos padres jesuítas da Vila. Consta que os fazendeiros tentaram muitas vezes convencer os padres do Páteo do Colégio de que a prosperidade de São Paulo dependia da mão-de-obra indígena. E que, portanto, era necessário contar com os índios. Os padres eram contra, porque baseavam-se nas informações de São Paulo, em suas famosas cartas, onde descrevia sua contrariedade contra as ordens das autoridades do Sinédrio – o mais alto posto da hierarquia dos judeus – que ordenava que os gentios fossem também circuncidados. Entendia Paulo que essas ordens deveriam ser atendidas pelos judeus, não pelos gentios que eram gente de outra formação. “Os gentios não são escravos do judaísmo”.

Assim os jesuítas consideravam a situação. “Nada de escravos no Planalto de Piratininga.” Cronistas da época narram outra história. Os fazendeiros tinham seus índios para serviços gerais. Mas não os denominavam escravos. Num censo feito na época, diziam que possuíam trabalhadores amigos, pessoas da casa, quase filhos. Esses índios construíam casas, faziam móveis, erguiam cercas, reformavam casas, domavam animais. Segundo os fazendeiros, eram livres. Mas assim não entendiam os jesuítas e as desavenças começaram a tomar vulto. Os fazendeiros se reuniram e no dia 13 de junho de 1640 os expulsaram. O acontecimento chegou ao Vaticano e o Papa mandou excomungar todos os fazendeiros da Vila de São Paulo. Aparentemente, a excomunhão era uma condenação que os católicos mais temiam. Em São Paulo, os moradores continuaram a viver a mesma rotina, nem por isso sem os alvoroços de grupos, principalmente de origem espanhola.

Neste mesmo ano, aconteceu a libertação de Portugal do jugo do império espanhol. Este acontecimento vai modificar em profundidade a relação do Brasil com a metrópole. Como existia em São Paulo um grupo de pessoas de origem espanhola, muitas delas vindas de Assunción, no Paraguai, os portugueses tomaram uma decisão: firmar o conceito da permanente liberdade da Espanha, e ao mesmo tempo juraram plena fidelidade ao Rei de Portugal. Assim pressionados pelos ânimos, os espanhóis resolveram tomar uma derradeira atitude. Em manifestações públicas, aclamaram Amador Bueno como o Rei de São Paulo. Tarimbado e conhecendo as tricas e futricas da política, Amador recusou o título. Ameaçado pelos espanhóis, refugiou-se no Convento São Bento. Depois partiu para o litoral, onde esperou os ânimos se acalmarem.

A presença de espanhóis na Vila de São Paulo gera várias especulações. O que estariam fazendo eles aqui. Em geral, eram pessoas vindas de Assunción. Conclusões mais recentes indicam que eram judeus, fugidos da persseguição da Inquisição que havia se instalado no Paraguai, sob as ordens das autoridades eclesiásticas de Madri. O fato deles estarem em São Paulo e aclamado Amador Bueno rei da província nos leva a acreditar que os judeus espanhóis ou paraguaios tentavam dominar uma região longe dos olhos inquisitoriais da igreja católica.

A fundação de Jundiaí, portanto, pode ter outra origem. Os fundadores poderiam estar agastados com a expulsão dos jesuítas e resolveram entrar para o interior, onde pretendiam fundar uma vila libertária, cultuar a religião nos moldes dos jesuítas, longe dos fuxicos de São Paulo. Também estariam fundando uma vila onde poderiam fazer o que bem entendiam, longe das autoridades portuguesas, inclusive caçar índios e vende-los depois para as mais diversas regiões do Brasil. Era um negócio rendoso.

Existem, porém, informações que não corroboram essas insinuações. Parece que a vila de Jundiaí teve desde o início o respaldo das autoridades portuguesas e paulistas. Reorganizado, ganhando autonomia, depois de sessenta anos vinculado ao Reino da Espanha, estava agora Portugal interessado em conquistar o interior do continente. Já existia estrada ligando o litoral até Assunción, e de lá até as terras peruanas. Havia terras a conquistar e bastava um marco para que o império português reconhecesse a propriedade.

O próprio Rafael de Oliveira teria sido descendente de judeus e foi convertido na grande onda de conversões impostas pelo rei de Portugal. A história nos conta que o rei tentava por todas as maneiras fazer a conversão dos judeus para o cristianismo. Não o conseguindo por bem, teria dado um prazo. Os judeus portugueses se reuniram no porto de Lisboa com todos os seus pertences carregáveis. Alguém deve ter esclarecido ao rei que a saída dos judeus representava uma sangria muito acentuada nos cofres do imperiais, porquanto eles tinham ligações com os originários de sua raça em todo mundo. Foram os judeus venezianos que haviam financiado a viagem de Pedro Álvares Cabral e inclusive a construção de navios. Sem eles, portanto, Portugal teria muito a perder. O rei resolveu então fazer a conversão coletiva e mandou batizá-los no porto. Deste modo satisfazia as autoridades eclesiásticas e ficava de bem com o povo judeu.

Na conversão coletiva, muitos tiveram os nomes trocados. Assim os Oliveira, os Carvalho, os Macieira, os Pereira e tantos outros com sobrenome de árvores ou de frutas eram judeus convertidos. Eles infestaram a costa brasileira para terem uma vida mais tranqüila. Provavelmente, eram cristãos só da boca pra fora.

A família Oliveira fazia parte dessa imensa onda de refugiados ao longo da costa brasileira. Eram exímios comerciantes e contumazes garimpeiros. Em quase todas as descobertas de ouro no Brasil vamos encontrar os descendentes de judeus. O ouro, em princípio era o bem mais procurado. Depois, surgiram também as pedras preciosas. Tanto o ouro como as pedras preciosas eram fáceis de carregar. Assim, diante de uma ameaça ou de uma perseguição policial ou religiosa, os judeus carregavam seus bens ou todo o patrimônio com facilidade. Não se ligavam muito às propriedades imobiliárias, como faziam os portugueses puros.

Ainda no século XXl vamos encontrar muitos judeus no ramo de ouro e pedras preciosas. Praticamente, dominam as exportações desses bens e onde exista uma mina contendo minerais nobres, sempre haverá um judeu interessado em sua exploração.

Na velha Vila de São Paulo vamos encontrar os judeus cristianizados trabalhando ao lado dos portugueses. Pagavam o quinto ao Governo, que seria 20% da renda gerada com seus negócios, sonegavam o que podiam sonegar, fomentavam rebeliões contra os aumentos desses mesmos impostos, financiavam bandeirantes e emprestavam dinheiro aos comerciantes. Levavam vida austera. Alguns deles até participavam de reuniões secretas. Chegaram até mesmo a renegar a moeda portuguesa, o que levou o Ouvidor a fazer sérias admoestações aos moradores da Vila de São Paulo e de Jundiaí.

Em 1655, a vila de Jundiaí conquistaria a autonomia. No grande interior do Estado de São Paulo ela foi uma das primeiras a receber esse reconhecimento. As primeiras povoações de São Paulo que conquistaram o reconhecimento de vilas, antes de Jundiaí, foram Mogi das Cruzes em 1611, e Santana do Parnaíba, em 1625. Surgiram a seguir Taubaté em 1643. Já em 1651 foi aprovado o reconhecimento de Guaratinguetá, e em 1653, Jacareí. Depois foi a vez de Itu, em 1656, e Sorocaba, em 1661. Com o reconhecimento de Vila, Jundiaí recebeu duas notáveis instituições, a Câmara de Vereadores e o Cartório, que normatizaram as relações entre os homens. Essas duas instituições iriam influenciar a vida na Vila pelos anos porvindouros. As atas da Câmara de Vereadores de Jundiaí, intactas até hoje, representam o mais importante arquivo de atos públicos e privados praticados na Vila, cujo território era imenso e ia até as barrancas do Rio Grande e não tinha limites conhecidos na vastidão do seu território. Houve época em que vereadores de Jundiaí estavam fazendo correições em território de Minas Gerais, provavelmente sob as ordens do Ouvidor em São Paulo.

Campinas, Mogi das Cruzes, Mogi Mirim, Caconde e Franca foram as vilas mais conhecidas fundadas por jundiaienses. E agora podemos afirmar que Goiás Velho, antida capital do Estado de Goiás, foi fundada por jundiaiense. O próprio Bartholomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, possuía terras na região de Jundiaí. Sua bandeira foi formado por jundiaienses. É considerado em Goiás o fundador do Estado e recebe inúmeras homenagens. Ao lado de Goiânia, existe uma vila-cidade com o nome de Jundiaí, provavelmente em homenagem aos fundadores.

Pouco antes de 1640, ali por volta de 1630, a vila de São Paulo era o maior aldeamento de índios das Américas. De onde tinham chegado tantos índios? Da região de Guairá, no sul do País. Conta a história que Raposo Tavares e Manuel Preto fizeram uma incursão àquela região para capturar índios aculturados, isto é, domesticados, prontos para trabalharem nas fazendas paulistas.

Relatórios dos padres jesuítas que sobreviveram ao ataque dessa dupla de bandeirantes queixam-se da violência empregada na captura desses índios. Eles aplicaram o sistema de terra arrasada. Colocaram fogo nas igrejas, nas casas, nos pavilhões erguidos pelos padres jesuítas espanhóis e trouxeram para São Paulo de 30 mil a 50 mil índios. De outra feita, isso por volta de 1633 atacaram a aldeia de Tape, e também arrasaram tudo o que encontraram e fizeram grande apreensão de bens e de índios, aumentando desmesuradamente o número de indígenas na vila paulista.

Naquele tempo, os índios eram considerados patrimônio, tinham algum valor de acordo com a idade, saúde e domesticação. Eles serviam de dote por ocasião dos casamentos, podiam também entrar na transação de qualquer bem, como, por exemplo, troca de terras por tantas peças indígenas. Eram exportados para outras partes do País e rendiam, portanto, muito dinheiro.

É sabido que na missão de aprisionamento de índios da região do Guairá, ficaram na vila de São Paulo apenas 25 brancos e alguns índios, tal era a sanha dos habitantes na busca de bens. Cerca de 400 brancos e mais 2 mil índios embarcaram nesta aventura da dupla Manuel Preto e Raposo Tavares.

A notícia desse aprisionamento de índios chegou à Europa, através de dois padres espanhóis, que estavam em Guairá. O relatório que apresentaram foi dramático. Eles não entendiam como a civilização dos portugueses, debaixo do mesmo teto da Santa Igreja Católica, pudesse ter construído monstros desalmados, que matavam e escravizavam sem piedade.

No meio desse movimento estava a resistência dos oito padres do Páteo do Colégio, que só tinham uma arma: ameaçar de excomunhão os líderes do movimento. O companheiro de Raposo Tavares, Manoel Preto, foi depois morador de Jundiaí, e consta um pedido de terras para que construísse uma casa. Tudo leva a crer que Jundiaí iria fazer parte do esquema dos paulistas. A idéia provavelmente era formar novos aldeamentos, perto de São Paulo, de onde os paulistas pudessem buscar as peças que necessitavam para vende-los no rendoso negócio da escravidão.

Além desse negócio de escravos, poderia pairar a iniciativa dos portugueses de enfraquecer o império espanhol na América do Sul, através da destruição de suas iniciativas. Na Europa, a Espanha havia se enfraquecido acentuadamente, devido às guerras com seus vizinhos. Na época da separação de Portugal, não tinha mais condições de continuar as suas lutas guerreiras. Era, portanto, o momento oportuno de Portugal agir juntamente com outros impérios que não desejavam o fortalecimento da Espanha neste lado do mundo.

Tudo leva a crer que as autoridades portuguesas faziam vistas grossas às reclamações dos padres espanhóis. O pedido de providências feito ao governador geral em Salvador não surtiu efeitos práticos. Os portugueses também não tinham condições logísticas de atacar São Paulo para colocar os bandeirantes sob as ordens de Portugal. Era mais recomendável tê-los como aliados do que como inimigos. Além disso, nesta época, estavam aparecendo sinais da descoberta de ouro em diversas regiões do Brasil. E a ordem, portanto, era manter a amizade com os paulistas. Havia também uma outra razão: os portugueses chegaram à conclusão de que os paulistas tratavam bem os índios. Como eles passaram a ser peças de valor, portanto, rendosos, não havia razão para acreditar em maus tratos. Uma peça sadia valia mais do que uma peça doente e muito menos morta. Se os ataques eram feitos contra os aldeamentos espanhóis, tanto melhor para Portugal. O império português sabia lidar contra as situações mais inusitadas. Tinha que apelar para a diplomacia, para os tratos e destratos dos bastidores, fazer vistas grossas para tantos acontecimentos, uma vez que não possuía forças armadas suficientes para encetar movimentos de tropas, além do mais longe, no além mar.

A igreja católica nascente em São Paulo estava dividida. De um lado estavam os padres jesuítas,do Páteo do Colégio, e de outro, os padres beneditinos, do Largo de São Bento. A orientação dos jesuítas provinha de seu fundador, Ignácio de Loiola, espanhol, mas que tinha fortes raízes em Portugal. Ele era tio de José de Anchieta, fundador de São Paulo, e era natural, portanto, uma relação de amizade e de ideologia religiosa. Tio e sobrinho mantiveram durante certo tempo farta correspondência. A influência do fundador da Ordem dos Jesuítas em São Paulo, através de José de Anchieta, tinha origens emocionais diretas, por causa dos assuntos de família, do passado e da constituição da própria família de José de Anchieta, cuja mãe, era hebraica de nascimento.

Anchieta era homem de compleição franzina. Sofria fortes dores na coluna e também era debilitado por insidiosa doença pulmonar. Andava meio arqueado e isso desde a juventudade. Quando foi estudar no Porto, seus superiores viram nele um prodigioso garoto na arte de entender as línguas. Tinha facilidadeds com o hebraico e com o grego, línguas importantes do passado e com forte influência na igreja católica. Dominava o latim com facilidade. Seu pai, homem considerado culto, tinha estado na Grécia e conheceu bgem o idioma. Sua mãe, judia de nascimento, ensinava em casa a língua de seus ancestrais. Portanto, Anchieta sofreu a influência de três línguas, o que lhe iria ser de importância fundamental quando foi o responsável pela conversão dos índios ao cristianismo nos primórdios da vila de São Paulo.

Por causa de sua doença pulmonar, foi sugerido que ele viesse passar uns tempos nos trópicos. O clima em Portugal trazia pertinazes problemas para aqueles que tinham dificuldades com o sistema respiratório. Sua própria família considerou a orientação correta. Deste modo, Anchieta deixou s Portugal e se embrenhou na grande aventura de Portugal, que era a conquista de terras no além-mar. Nesta época era apenas um rapazinho de aproximadamente 19 anos. Cinco anos depois recebe a incumbência de fazer uma missa no Planalto de Piratininga.

Como tinha facilidades com as línguas troncos da naqueles tempos, teve facilidade em aprender o tupy-guarany. Elaborou o dicionário tupy-guarany, elemento de importância fundamental nas relações dos portugueses com seus nativos. Deste modo, conseguia ensinar os índios em sua própria língua. E depois passou a ensiná-los o português. Com seu teatro, ao desenvolver peças teatrais, conseguiu também introduzir entre os índios o entretenimento intelectual. Suas peças fizeram sucesso, pois ele introduziu a linguagem tupy-guarany aos seus personagens e mais tarde o português. Conseguiu desenvolver um meio de educar e de divertir.

Quando se dizia que os índios estavam educados e civilizados, é porque a cukltura desenvolvida por Anchieta na arte de educar e de introduzir nos trópicos o ensinamento de Jesus, tinha tido sucesso.

Uma boa parte dos índios que vieram para Jundiaí na missão de fundar uma vila tinha sido domesticado e recebido instruções no Colégio dos Jesuítas. Mas a maioria ainda continuava a conhecer apenas a língua natal.A introdução das cavalgadas, da arte de domar os animais e de adestramento dos cavalheiros foi o ponto principal da permanência dos índios na vila, porquanto eles adoravam os cavalos e as mulas.

Assim sendo, a vila de Jundiaí não era um centro inculto, como na época da fundação da vila de São Paulo. O Colégio dos Jesuítas no Páteo do Colégio teve grande influência na formação cultural e política do Estado de São Paulo. não obstante o tempo em que ficou fechado por ordem dos fazendeiros paulistas.

Ao receber a Câmara de Vereadores e o Cartório, a vila de Jundiaí dava um passo importante para se consolidar no grande interior. Quando mais tarde seus habitantes começaram a ir mais para o interior, em busca de ouro e prata, as bases jurídicas para a formalização da posse da terra já estavam amplamente apoiadas pelo cartório, enquanto em outras vilas ainda ia demorar muito para que isso acontecesse. Algumas delas levaram mais de cem anos para obterem essas conquistas.

De vez em quando, por falta de pesquisas ou de exames mais acurados dos livros publicados sobre a fundação e origem de Jundiaí, aparecem na Câmara de Vereadores debates sobre qual teria sido a data correta que assinala o início da Vila. Em 2008, houve mais uma vez esse debate. Algumas pessoas, que ocupam posição de liderança no comércio da cidade, queriam mudar a data para 28 de março, que efetivamente, essa seria a data da fundação. Ora, a Câmara agiu corretamente ao manter a data da fundação em 14 de dezembro, que é a correta Em 1865, por lei provincial de 28 de março, Jundiaí passou da categoria de Vila para a de município.

A partir do reconhecimento da Vila em 1655, vamos encontrar diversos pedidos de reconhecimento de títulos de propriedade. O primeiro deles, de João Leme do Prazo, que foi vereador na vila nascente, dizia que era casado com a filha do primeiro povoador, Ana Maria Ribeiro. Ora, Ana Maria era filha de Rafael de Oliveira, o Moço, e de sua primeira esposa Maria Ribeiro. Se João Leme do Prado tinha essa alegação é porque efetivamente a Vila tinha sido fundada recentemente. Também encontramos em outros pedidos de reconhecimento da posse da terra de moradores que afirmaram que tinham vindo com o primeiro povoador, há uns 17 ou 18 anos. Portanto, se essas cartas eram de 1657 ou de 1658 e a alegação era de que vieram com o primeiro povoador, parece não haver dúvidas de que Jundiaí foi realmente fundada em 1640.

E como também esses pedidos eram de terrenos localizados nas biquinhas das ruas do Rosário e São Bento, acredita-se que o núcleo inicial tenha se iniciado nesta área. Vamos encontrar referências a essas biquinhas nos séculos porvindouros, e inclusive em 1.900, quase 250 anos depois.

O que tem levado algumas pessoas a quererem mudar a data da fundação tem objetivos meramente comerciais. Segundo alegações dessas pessoas, a data de 14 de dezembro, feriado municipal, prejudica o comércio, fazendo com que compradores saiam da cidade para São Paulo ou Campinas. Ora, o bom senso precisa prevalecer. A História não pode ser manipulada, como se fosse apenas um objeto de armazéns de secos e molhados, como existia antigamente. O dia 14 de dezembro já está marcado na vida de Jundiaí, acreditamos que definitivamente. Existem documentos comprobatórios.

O grande enigma de Jundiaí foi a colocação em sua bandeira da data de 1615. Outro enigma é a presença de Petronilha Antunes. Quem a colocou na história?

Na administração Luiz Latorre, que foi prefeito de Jundiaí no período 1/1/1952 a 31/12/1959 foi constituída uma comissão para dar a apalavra final à controvertida questão dos fundadores e data de sua fundação. O trabalho foi impresso pela Prefeitura um livro, intitulado Elementos para a História de Jundiaí, mas se encontra totalmente esgotado. Depois, no final da década de 1960, os Professores Nelson Foot e Armando Colaferri publicaram um livro denominado Em Torno da Fundação de Jundiaí, mas esse trabalho reafirmou a versão inicial de que Rafael de Oliveira e Petronilha Antunes tinham sido os verdadeiros fundadores do município.


A moeda e a barreira

No dia 2l de janeiro de 2008, publicamos no Jornal de Jundiaí um ligeiro comentário sobre a reunião realizada em Jundiaí na Câmara Municipal entre os vereadores e o corregedor geral, que veio especialmente para entregar à população um pedido do rei de Portugal. Era a criação da barreira fiscal para ajudar a reconstrução de Lisboa, destruída quase totalmente por um terremoto.

A população, inicialmente, anuiu ao pedido, mas depois julgou que seria de bom alvitre não se envolver demasiadamente com esses custos adicionais. Assim, com o decorrer dos anos, foi se amoldando aos fatos econômicos e financeiros impostos pela metrópole e acabou tomando uma iniciativa pioneira, qual seja, rejeitou a moeda portuguesa.

Passou então a viver do escambo, da troca de mercadorias entre as famílias. Construiu nova passagem para o interior, longe dos olhos dos fiscais, mesmo porque os moradores de Jundiaí, aí por volta de 1730, já tinham grandes interesses no interior, principalmente na região de Mogi Mirim e Mogi Guaçu, onde haviam descoberto um alentado veio de ouro.

A fiscalização centralizou suas atenções sobre a passagem de animais oriundos do Rio Grande do Sul e de Sorocaba. E para a capital e litoral, também o tratamento era idêntico, dez por cento para o fisco português. A população chamava isso de derrama portuguesa. Queria ter liberdade de comprar e vender e agora vinha o rei impor uma barreira fiscal desalentadora para os negócios.

A situação se agravou. O rei de Portugal ficou sabendo, através de relatório do corregedor-geral e mandou que fosse feita uma correição geral em Jundiaí. Todas as cuias e medidas foram averiguadas. E para facilitar a fiscalização criou o monopólio da aguardente. Apenas uma pessoa estava autorizada a negociar a pinga. Quando um outro comerciante começou a fazer negociações por fora, foi severamente punido.

O mais importante, porém, é que ao refutar a moeda, os jundiaienses estavam dando uma demonstração de que desejavam a liberdade. E como possuíam um vasto território, poderiam com o decorrer dos anos transformar toda esta vasta região numa área independente de Portugal, o que, de certo modo veio a ocorrer. Na sessão de 11 de outubro de 1801 da Câmara Municipal de Vereadores compareceu a Jundiaí o desembargador Joaquim José de Almeida para a correição geral e perguntou aos presentes de quem era esta vila e a quem o povo conhecia por soberano? “O povo respondeu que a vila pertencia à raínha Dona Maria Primeira e ao senhor Dom João, nosso príncipe regente. Mas a certa altura, o desembargador resolveu tratar do assunto que mais lhe interessava e disse que “a requerimento dos oficiais da Câmara lhe foi proposto que nesta vila e em seu termo (Mogi Mirim e Mogi Guaçu) refutam a moeda verdadeira, que havia algum safado ou alguns safados refutando a moeda verdadeira, pedindo que a Câmara tomasse providências.”

O desembargador ainda ameaçou a população e deixou transcrito na ata da Câmara seus protestos com a seguinte redação: “Proveu e mandou que ninguém refute a moeda verdadeira com o pretexto de ser safada, uma vez que se conhece sua legitimidade, obrigando a Justiça a aceitá-la, quando lhe obstem proceder contra os delinqüentes na conformidade da Lei”.

Desde 1503, quando houve um grande conclave dos judeus de São Vicente, entre eles espanhóis, portugueses, holandeses e franceses, todos milionários cidadãos europeus e que aqui procuravam criar uma nova pátria,fugindo da perseguição da Inquisição, com novas ordenações e nova moeda, lastreada no ouro, a administração portuguesa vivia atenta.

Assim sendo não seria de bom alvitre para Portugal que a mais extensa de suas vilas rejeitasse a sua moeda. E esse processo de refugo da moeda veio formalmente logo em seguida, em 1822, com a independência. Mas, em Jundiaí, isso vinha acontecendo pelo que se conhece desde 1750.


A greve de 1906

Fato marcante na vida de Jundiaí, a greve dos trabalhadores de 1906 ainda não foi assinalada na cidade com um marco histórico de relevo, que deixasse para as futuras gerações a lembrança memorável da primeira insurreição operária do Brasil. Recentemente diversos leitores nos pediram esclarecimentos sobre o assunto, uma vez que não existem levantamentos históricos precisos. Há na História de Jundiaí, livro que foi publicado em 1997, um registro importante.

“A morte de cinco anarquistas em Chicago, nos Estados Unidos, no dia 1º de maio e que foi transformado no Dia Mundial do Trabalhador, foi, duas semanas depois, comemorado em Jundiaí com um encontro de trabalhadores no Teatro Polytheama. Entre seus palestrantes estava Edgard Leuenroth, famoso tribuno da capital. Duas semanas depois explodia a greve na Companhia Paulista de Estradas de Ferro, marcando o início do movimento operário no Brasil de forma definitiva.

O crescimento da Companhia Paulista havia levado a empresa a propor um sistema de previdência social aos operários, mediante o desconto obrigatório para a Sociedade Beneficente – base da futura lei da previdência social em todo o país – e reduzir a carga de trabalho para cinco dias. Na época não se ganhava o domingo, dias de folga ou férias. A redução total de 30% sobre os salários foi o motivo principal da eclosão da greve.

Os protestos contra o inspetor geral da companhia, Francisco Monlevade, foram divulgados pela imprensa como uma agitação organizada em Buenos Aires.Os trabalhadores paralisaram o tráfego de trens entre o interior e a capital. NO distrito de Campo Limpo Paulista os trabalhadores paralisaram um trem com um contigente militar. Apenas dois dias após a greve da Paulista, também os tecelões da Fábrica de Tecidos São Bento entraram em greve de solidariedade.

A convocação do governo aos operários da Santos-Jundiaí, Sorocabana e Mogiana não teve efeito e estes aderiram ao movimento. Diretores da Liga Operária foram ameaçados, a sede da Federação Operária em São Paulo foi invadida e os boletins foram impedidos de circular. Em uma passeata na rua São Bento, os operários Ernesto Gould e Manuel Dias, entre outros, morreram. Na repressão policial, no dia 30 de maio, um batalhão da Força Pública dissolveu um comício à bala em São Paulo.Diante da enorme repressão, alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco se declararam em greve de solidariedade e o movimento ganhou vulto na capital. Uma passeata de operários na praça da Sée foi dissolvida pela polícia. O confronto foi tão violento que no dia 31 de maio todo o comércio de Jundiaí cerrou suas portas.

Enquanto o governo republicano aprovava a lei de expulsão dos estrangeiros do Brasil, a greve novamente voltou em maio de 1907 para reivindicar oito horas de trabalho diário como limite. O movimento operário conseguiu suas maiores vitórias em 1917 e 1919, ganhando com o Partido Comunista que ocupou o espaço dos anarquistas anteriores.

Em 1923, o advogado e deputado federal jundiaiense Vail Chaves apresentou um projeto de Previdência Social, que foi aprovado pelo Congresso Nacional, dando início à Previdência Social no Brasil, que veio, na década de 1930, com o governo Getúlio Vargas, ganhar status de lei nacional.

O pioneirismo do movimento operário de Jundiaí é o fato mais marcante na vida sindical do Brasil e mostra o quanto estava politizada a classe dos trabalhadores. Na década dos anos de 1950 e início de 60, Jundiaí foi também um importante centro de decisões operárias, uma vez que os trens que passavam pela cidade faziam praticamente o abastecimento da capital e também do interior. Parar o sistema ferroviário em Jundiaí era o acontecimento mais importante em qualquer greve. Hoje, esses acontecimentos estão sob o tapete da história conservadora. Mas, sem dúvida, torna-se imprescindível demonstrar às novas gerações que o município gerou idéias que hoje beneficiam todos os brasileiros.

Esses mártires de 1906 só são lembrados em seus túmulos no Cemitério do Desterro. Estão como desterrados da história oficial, porém, marcados para sempre na vida do município. Em 2006, a Unicamp fez significativa homenagem a esses operários. Historiadores de todo o Brasil se interessaram pelo assunto. Nós, como jornalistas, avivamos os acontecimentos. Agora cabe aos acadêmicos fazerem o perfil histórico e aos políticos tomarem providências para que este acontecimento seja comemorado com toda seriedade que ele merece.

Há poucos dias ouvi de um deputado federal a frase: “os aposentados não conseguem atingir seus objetivos de reajustes de benefícios, porque não fazem greve.” Imediatamente contestei e informei a ele que a primeira greve de trabalhadores no Brasil teve como causa principal a implantação da Previdência Social. Ele demonstrou surpresa e eu disse que o Governo Federal poderia se surpreender com a capacidade de mobilização dos trabalhadores pela causa da Previdência Social.


A força negra

Como teria se comportado Jundiaí ao longo da escravidão dos negros? É sabido que antes da chegada dos africanos, praticava-se a escravidão indígena, condenada pelos padres jesuítas e por isso expulsos de São Paulo em 1.640, mesmo ano em que os primeiros casebres de barro e sapé eram erguidos em Jundiaí.

A grande extensão do território jundiaiense, que ia até as fronteiras de Minas Gerais, pressupõe a existência de inúmeras fazendas com milhares de escravos. Frequentemente havia fugas de escravos e os fazendeiros colocavam anúncios até em jornais, dando prêmios a quem reconduzisse os fugitivos às suas fazendas. Um desses anúncios, na Gazetta do Rio de Janeiro, dizia o seguinte:

“Fugiu há dois meses da fazenda de Francisco de Moraes Campos, da Freguesia de Belém, município de Jundiaí, um escravo de nome Lourenço, com os seguintes sinais: idade 30 anos mais ou menos, estatura regular, rosto comprido, bonito de feição, cabelos grenhos, nariz atilado, boca e beiços mais que regulares, sendo o beiço inferior mais grosso e vermelho, boa dentadura, cor retinta, pouca barba, fino de corpo, tem a coroa da cabeça pelada de carregar objetos, pernas finas, pés palhetas e pisa para fora, é muito ladino, é roceiro e muito bom tropeiro. Gratifica-se bem a quem pegar o dito escravo e paga-se todas as despesas que tiver feito até a ocasião da entrega.”

Antes da entrada do café em Jundiaí, por volta de 1.800, a população era muito itinerante. Muitos historiadores localizaram jundiaienses em Minas Gerais, na região do Tijuco, e também em Cuiabá, por ocasião da intensa garimpagem do ouro. Nas Minas de Cuiabá foram contados 30 mil escravos trabalhando em condições ásperas e rudes. Houve ocasião em que as condições de trabalho eram tão duras, que milhares de escravos fugiram. Os donos deles resolveram contratar capitães do mato para trazê-los de volta. Na impossibilidade deles se entregarem pacificamente, poderiam ser mortos e seus pares de orelhas deviam ser entregues aos seus senhores. Um desses capitães do mato, de passagem por Jundiaí, contou que tinha em seu poder 3.969 pares de orelhas de negros fugitivos e que cada par valia 6 mil réis.

Ninguém mais discute a importância dos negros na formação econômica do Brasil. Mais do que suas contribuições como mão-de-obra valente e forte, a maioria deu sua vida ao País. Para se ter idéia da dimensão dessa contribuição, somente pelo porto do Rio de Janeiro desembarcaram cerca de quatro milhões de africanos, todos transformados em escravos, fora os que morriam na viagem. Calcula-se que 28 por cento morriam nos navios por doenças e desnutrição e eram jogados no mar. E isso sem contar os desembarques nos portos do Nordeste, principalmente Salvador.

As fazendas jundiaienses de açúcar, aguardente e rapadura foram sendo substituídas por café e por volta de l885, cinco ferrovias cortavam o município, todas transportando café e de lambuja outras mercadorias e passageiros. Neste mesmo ano, calculava-se que somente no território de Jundiaí eram produzidos mais de 50 mil arrobas de café e 11 mil de açúcar, também embarcados para o exterior ou para São Paulo. Por ocasião da abolição da escravatura, em 1888, os fazendeiros, por orientação do Visconde de Parnaíba, filho do Barão de Jundiaí, tinham substituído quase toda a mão-de-obra africana por trabalhadores italianos, que também seriam submetidos a situações desumanas nas fazendas e nas cidades.

A contribuição dos africanos foi tão excepcional, que hoje 52 por cento da nossa população é constituída por negros, mulatos e pardos, provavelmente formando a mais alvissareira civilização dos trópicos.


A educação em Jundiaí

Em 1983, foi feito um levantamento de quantos alunos estava composta a rede escolar de Jundiaí. Os números indicavam aproximadamente 1.200 alunos, segundo jornais da época. A Secretaria Municipal da Educação possuía cerca de 380 funcionários, dos quais 115 eram professores. Funcionavam quatro escolas, que atendiam apenas o Jardim.

O Ministério da Educação, que fez um levantamento em Jundiaí em 2005, constatou que a educação no município havia apresentado crescimento extraordinário. O número de escolas passou para 113 unidades, nas quais trabalhavam aproximadamente 1.500 professores. A Secretaria da Educação tinha perto de 3.000 funcionários e o número de alunos chegava a quase 35 mil, sendo 1.300 nas creches, 9.928 na pré-escola, 274 na educação especial, l7.733 no ensino fundamental (de 1ª. A 4ª. Séries), 493 no ensino fundamental (5ª. A 8ª.) e educação de jovens e adultos 5.000. O ensino fundamental representava quase 53% do total de alunos e a pré-escola perto de 30%.

Hoje, em 2008 a Secretaria da Educação e Esportes continua a apresentar números expressivos. Já são 124 unidades escolares. Em. três anos foram construídas 13 novas escolas e reformadas perto de 100 unidades. O número de alunos chega a quase 40 mil. Constata-se, porém, que nas creches e na pré-escola esteja ocorrendo uma queda do número de alunos, provavelmente, por dois fatores: queda da natalidade e aumento das matrículas na rede privada, que continua respondendo satisfatoriamente à demanda.

Embora sem uma universidade, a cidade possui inúmeros cursos superiores e inclusive de pós graduação. Há escolas técnicas de bom nível e o Senai e a Fatec dão um grande respaldo à formação de mão-de-obra qualificada para as indústrias aqui instaladas. A Faculdade de Medicina mantém a sua reputação de qualidade e a Faculdade de Educação Física continua a formar bons profissionais.

No ano de 2007, a Secretaria tinha um orçamento de R$ 135 milhões, dos quais 68 por cento com a folha de pessoal, 19% com o custeio e 13% com investimentos. O orçamento de 2008 foi para R$ 160 milhões. Sua dotação orçamentária tem sido superior ao orçamento de mais de 85% dos municípios brasileiros. Para 2009 calcula-se que seu orçamento será superior à arrecadação total dos municípios de Várzea e Campo Limpo Paulista, que em conjunto possuem perto de 180 mil habitantes.

A preocupação com a educação em Jundiaí vem de longe. Encontramos nos anais da Câmara Municipal de Jundiaí várias sessões que tratam de assuntos relacionados com a ensino escolar. Em 1891, 9 professores trabalhavam na cidade. Eles se reportavam ao Diretor Geral de Instrução Pública. Todas as transferências de professores dependiam de anuência do Congresso Estadual (Assembléia Legislativa). Havia um Conselho Municipal, que acompanhava o comparecimento ou falta dos professores e recebia semanalmente um mapa com as presenças dos alunos. Os pais dos alunos faltosos eram chamados por esse Conselho para explicações. Conforme o caso, o assunto ia parar na Justiça. Havia também um fundo escolar que realizava investimentos nas escolas e era administrado pelo Diretor Geral de Instrução Pública e pela Câmara Municipal. Em 1891, existia neste fundo a importância de 8$800( oito mil e 800 réis), uma ninharia.

Se o município continuar a crescer no ritmo dos últimos 25 anos, vai precisar até o ano 2.035 de aproximadamente 110 novas escolas, 1.200 professores e pelo menos mais 2 mil funcionários. Porém, o maior desafio virá da área orçamentária, que terá que buscar novas fontes de renda para atender a demanda, que exigirá melhor qualificação dos professores, maior presença dos pais nas decisões e uma preparação mais adequada do Conselho Municipal de Educação, hoje muito carente de informações básicas da evolução do mercado. Até o ano de 2.035, alguns especialistas apontam que vão surgir no mundo cerca de 2.000 novas profissões e entre elas muitas ligadas à educação até à Oitava Série. Desafios não faltam.


A constituição imperial de Jundiaí

A independência do Brasil só chegou a Jundiaí 35 dias após a sua proclamação. Ecos do acontecimento chegaram a cidade por habitantes que tinham ido à capital e souberam que Dom Pedro I tinha feito a proclamação ao lado do riacho do Ypiranga. Houve muitas festas na capital e diversas recepções nas casas mais ilustres. Posteriormente, os habitantes de Jundiaí ficaram sabendo através de reuniões na frente da casa de Antonio De Queirós Teles, pai do futuro Barão de Jundiaí, que havia muitas discussões na capital do império a respeito da constituição brasileira. Existiam os portugueses que desejavam uma constituição federal à maneira de Portugal, mas ainda não existia nenhuma proposta de uma constituição brasileira.

Foi então que Antonio de Queirós Telles resolveu convocar as pessoas mais ilustres da cidade para redigirem uma constituição que representasse as aspirações nacionais. Veja os termos das reuniões:

“Aos l4 de fevereiro de 1824, nesta vila de Jundiaí, na casa do Juiz Presidente, o capitão Antonio de Queirós Telles, onde foram convocados os vereadores e o procurador geral da Câmara, e comigo escrivão da mesma e os homens bons que também a tem servido, estando presente o clero, nobreza e povo da mesma vila, que por edital foram convocados. Pelo dito juiz presidente foi apresentado um projeto para a Constituição Nacional que afiança e assegura a tranqüilidade e a prosperidade deste império. Pelo mesmo juiz foram apresentados dois livros, nos quais os cidadãos devem assinar livremente, sem coação de forma alguma, sendo um livro destinado aos que concordarem com o projeto e o outro livro destinado para os que concordarem com o parecer em apreciação.”

Lido o projeto todos concordaram unanimemente e assinaram um só livro, devendo observarem desde já como Lei Fundamental do Brasil, e por isso estarão prontos a jurar logo o Augusto Senhor Imperador assim que sancione o projeto em Lei. E para constar mandaram lavrar este termo que assinaram. Eu Raymundo da Silva Prado, escrivão o escrevi”. Seguem as assinaturas de Antonio de Queirós Telles, João de Oliveira Cardoso, José Pereira Queirós, José Correia Pupo e Raymundo José de Oliveira..

Dois meses depois, no dia 19 de abril, reunidos no mesmo lugar, os vereadores, o clero, a nobreza e o povo homologaram a nova Constituição e a ratificaram com suas assinaturas o juramento feito na igreja matriz, após missa cantada, Destacaram ainda que iam obedecer a constituição a ser aprovada pelo imperador.

O capitão Manoel Antonio de Siqueira, presidindo a reunião, solicitou a todos os presentes que assinassem o livro constitucional. Seguem-se 93 assinaturas. Dias depois toda a população aprovou o texto constitucional.

A Constituição Federal foi logo derrogada pelo imperador, porque, segundo ele, tornava-se impossível governar com ataduras em suas mãos. Uma nova constituição seria votada pelo congresso nacional, mais voltada para os interesses da Nação, de acordo com o próprio Dom Pedro I. Com relação à Constituição aprovada em Jundiaí existem vagas informações de que ela tenha sido utilizada naquela carta constitucionla, porém, seu espírito se vivificou na Constituição que vigorou por quase 50 anos no reinado de Dom Pedro II.

Vista ao longo da história, a iniciativa de Jundiaí, uma pequena vila do interior, perdida nos sertões, parece algo inusitado. Como se tomou uma iniciativa de tão longo alcance?

Como foi possível redigir uma constituição, visando contribuir para a formação da Nação que agora formatava sua vida com uma carta constitucional?

Ainda há poucos dias tive a oportunidade de falar ao prefeito Ary Fossen que Jundiaí foi a mais criativa cidade formada no interior de São Paulo. Suas iniciativas pioneiras foram tão importantes, que não há outro município no interior paulista que tenha contribuído tanto para a ocupação do território de nosso vasto interior. E também, como se vê, com iniciativas intelectuais fundamentais em remotas épocas.


A cobra do Walmor

Walmor Barbosa Martins foi prefeito duas vezes de Jundiaí(1969-1973 e 1989-1992). O município lhe deve muitas obras da mais alta importância, algumas visíveis e outras invisíveis. Entre as visíveis, podemos indicar a construção da avenida Samuel Martins, marginal do córrego da Colônia,a Antonio Segre, a Ferroviários, a continuação das obras de despoluição da bacia do rio Jundiaí, e entre as invisíveis a fase pioneira do planejamento, feita por Odair Schioser, engenheiro especializado na construção de estruturas de navios e ex-fuzileiro naval da Marinha dos Estados Unidos. Também podemos citar o prefeito, Ary Fossen, que como secretário das finanças de Walmor, em sua primeira gestão, implantou a informática na prefeitura, possibilitando agilizar inúmeros processos, tais como o IPTU, as taxas de água, e ampliar as receitas em novas frentes operacionais.

O lado engraçado de Walmor pouca gente conhece. Apelamos para a memória de Tarcísio Germano de Lemos, que se lembrou de muitas histórias engraçadas do ex-prefeito. Mas a principal, a que fez o povo rir e até hoje é motivo de gracejos ao Walmor, que repele essas insinuações, é a história da cobra.

O fato aconteceu na administração de Omair Zomignani. Walmor sempre estava à procura de alguma coisa para atormentar a vida do prefeito. Em l963, segundo a memória de Tarcísio, Walmor resolveu fazer um discurso, criticando o prefeito, que não tomava conta direito da cidade, que havia lixo por toda parte e que a Câmara deveria tomar atitudes enérgicas. O líder do prefeito a tudo retrucava, destacando que Walmor era muito brincalhão, um rapagão fanfarrão, que deveria ter bom senso. Na tribuna Walmor foi aumentando o seu tom de crítica. Lá pelas tantas, certo dia quando o bate-boca atingiu o auge, eis que ele tira de uma bolsa uma cobra, jogando-a em cima do líder do prefeito, que caiu da cadeira. A sessão foi imediatamente suspensa. Os vereadores saíram correndo e da tribuna o orador dizia. “Olha aí a prova de que a cidade está suja”.

Mesmo caído, o líder do prefeito retrucava: “é uma trama, uma ruína moral, uma irresponsabilidade”. Alguns vereadores subiram em suas mesas.A cobra se escondeu embaixo de alguma mesa ou cadeira. O líder do prefeito ainda dizia: “ela fugiu com vergonha do nobre orador”. E Walmor ainda de pé na tribuna retrucava: “trouxe para vocês a prova mais irrefutável”. A cobra sumiu do plenário, mas muita gente ainda comenta que sumiu com vergonha daquela situação insólita na história de nosso legislativo.

Há poucos dias perguntei ao Walmor sobre a história da cobra. Ele olhou para o chão, naquele seu jeito característico de mineiro desconfiado, ergueu a cabeça e disse: “você não vai colocar isso no jornal, vai?” Para logo depois destacar que a amizade que o prende ao Dr. Tarcísio é um dos elos mais importantes que teve ao longo de sua vida. “Se você publicar, eu desminto”, mas com a voz lírica, própria de um grande orador.

“A Câmara daqueles tempos tinha um ardor diferente. Os vereadores procuravam levar a sério seus mandatos. E isso tem que ser levado em consideração. Ninguém ganhava nada para trabalhar. Acho que o ardor cívico desapareceu”, destacou para nós Nelson Chacra, que foi vereador daquela época. E adiantou “ a Câmara tinha um núcleo de grandes oradores, destacando-se o Tarcísio, Walmor, Antonio Galdino, o professor Nelson Figueiredo, Flávio Ceolin e tantos outros”.