AS DILIGÊNCIAS DE JUNDIAÍ

Assim que se formou na Escola Normal do Rio de Janeiro, famosa por diplomar normalistas ou professoras, Ana Júlia recebeu nomeação para trabalhar em Campinas. No ano de 1863, o trem ainda não havia chegado a Jundiaí.. De modo que ela fez o trajeto até Santos por um barco a vapor e de lá subiu a Serra do Mar num trem de passageiros.

Para ir até Campinas, tomou em São Paulo uma diligência. Ela teve o cuidado de anotar tudo o que ocorreu nesta viagem. Contou que a diligencia era desconfortável. Possuía seis lugares, três em cada banco. As rodas eram de madeira com aro de aço. Quatro cavalos puxavam a diligencia por uma estrada perigosa, cheia de curvas. Existiam duas paradas para os cavalos tomarem água. Nelas haviam rústicos restaurantes, fogões a lenha que ficavam acesos dia e noite. As mesas eram de madeira rústica. Conforme o nível do viajante, o estalajadeiro jogava uma toalha sobre elas.

A viagem a Jundiaí levou seis horas.Chegando à vila de Jundiaí, aportou-se na Pensão da Ponte, que tinha um padrão elevado para a época. Todas as mesas possuíam toalhas. Os talheres eram de prata. Na cozinha, duas cozinheiras trabalhavam quase o dia todo. Uma delas era conhecida pelo nome de Nhá Chula, cozinheira de mão cheia. Eram famosos também os seus quitutes e doces de vários tipos, destacando-se o de abóbora, sidra, laranja, banana, leite, uva e tantos outros.

O dono era conhecido por Barão da Ponte. Logo à chegada de Ana Júlia, ele se apresentou. “Eu sou o Barão da Ponte. Assim fui nomeado pelo povo. Não precisei do decreto do imperador.” Era um gaiato que fazia todo mundo rir. Ela se divertiu muito com ele.

Deu uma volta pela cidade. Achou o centro muito bonito com dois jardins.. A igreja era muito simples, porém, bem arejada e limpa. Existiam algumas lojas e um restaurante com o nome Dom Manoel. Ficou três dias perambulando.

De volta à viagem para Campinas, passou por sítios e fazendas. Em todas elas notou que a população era muito trabalhadora. As casas eram simples, possuindo horta e criação de pequenos animais. Pararam numa localidade denominada Rocinha. Lá também havia uma estalagem com quartos e comida simples, mas nada comparado à pousada do Barão da Ponte. Contou que a estrada entre Jundiaí e Campinas era muito estreita. Não dava para passar dois veículos ao mesmo tempo.

Outro que usou a diligência foi o Visconde de Taunay. Mas essa é uma outra história.

Geraldo Gomes Gattolini


ECOS DE 1952

Quais seriam as grandes preocupações do jundiaiense em 1952. Um detalhado exame nos jornais e revistas publicadas naquele ano revela as expectativas dos habitantes. Comentava-se muito sobre as verbas que viriam do governo do Estado para a conclusão do Bolão e do Parque de Exposições. Mas dois problemas com aspectos cruciais toldavam as boas esperanças. Eles se concentravam no racionamento de energia elétrica e na falta dramática de telefones. Na Associação Comercial e Industrial de Jundiaí aconteciam seguidas reuniões para determinar os horários de racionamento de energia. Os horários eram das 8,00 às 10,00 horas da manhã e das 12,30 às 14,00 horas. Os industriais se queixavam da situação e que haveria desemprego. Em função de seu parque industrial, Jundiaí era grande consumidor de energia elétrica e diante de sua escassez em todo o Estado o governo resolveu fixar um corte de 20%, que seria escalonado por cada município. Ainda bem que naquela época não existiam edifícios altos. Hoje seria um deus nos acuda. Com relação aos telefones, as queixas eram contra a Companhia Telefônica Brasileira, considerada uma vilã principalmente pelos comerciantes. “Ela vem impedindo o progresso de Jundiaí”, era a queixa mais comum.
Havia também comentários sobre a expansão da cidade “em direção àquela lonjura do Anhangabaú”. A população também se queixava da falta de água principalmente nos bairros altos. “A escassez de água vai impedir a expansão da cidade.” Ao lado dos comentários negativos, havia comentários positivos sobre os meios de comunicações. “Jundiaí possui três jornais, uma revista mensal e uma emissora de rádio difusão, a querida Difusora.” Também a rede escolar merecia elogios. A Escola Anchieta já tinha até o curso ginasial. Mas não havia no município cursos superiores. Essa era uma das queixas dos estudantes, através de uma associação que fazia passeatas reclamando providências das autoridades. “Como manter o progresso do município sem educação superior?”
Muito comentário havia sobre as chaminés fumegantes de Jundiaí, símbolo de seu vertiginoso progresso. Hoje seria símbolo da poluição. Os jornais comentavam esses problemas e também as virtudes municipais. Houve até alguém que disse que Jundiaí deveria ser chamada de Cidade das Colinas, tal era a ocupação dos picos montanhosos da periferia. Mas outro movimento foi vitorioso. A Terra da Uva permaneceu até os nossos dias, mas parece que seus tempos estão murchando.
Os Ecos de 1952 chegaram até os nossos dias. Agora os problemas são outros. Ia me esquecendo. Jundiaí também era denominada de Cidade Dínamo, porque não parava de crescer.
(Geraldo Gomes Gattolini)


O BONDINHO DE JUNDIAí

Como era o bondinho de Jundiaí?
Sabemos que era puxado por quatro burrinhos, às vezes dois. Eram três bondinhos. No início faziam a linha entre a rua Cel. Leme da Fonseca e poucos metros depois de passar a portaria da Fábrica São Bento.
Cinco condutores ficaram famosos: Zelão, Tônico da Zabé, João Ratão, João Pelota e Antonio Pronto.
Assim que foi constituída, a Companhia de Bond’s de Jundiaí ganhou quatro inimigos. Eram eles o Mindu, Nhô Lau, Luiz Silvestre e o Deocleciano, todos eles condutores de charretes e mais tarde “guiadores” de carros de praça. Eles consideravam os bond’s algo inexpressivo, que vieram para tumultuar a pacata vida do jundiaiense. Na Câmara de Vereadores os debates foram intensos. Muitas vezes foram solicitadas providências contra a companhia.
Em 1893, ante tantos debates e críticas, um grupo de pessoas resolveu encampá-la, agora denominada Companhia Carris de Ferro Jundiana. No ano seguinte, a diretoria solicitou à São Paulo Railway Company permissão para levar seus bondinhos até à estação ferroviária.
Alceu Pontes (historiador e ex-prefeito) nos contou no início da década de 1970 que os bondinhos saíam da estação, entravam pela rua do mesmo nome, margeavam o rio Guapeva, subiam pela ponte curva, alcançavam a rua Adolpho Gordo ( Zacharias de Góes), subia o Beco da Sóta (rua Cel Leme da Fonseca). Aí era seu ponto final. No retorno descia pela rua do Rosário, virava o Beco do Pereirão (rua Siqueira de Moraes) descia a rua Barão de Jundiaí, contornava o Largo do Rosário (Praça Rui Barbosa), e descia para a estação.
No lugar onde era o ponto final, os burricos faziam buracos, jogavam lama nas casas. Enfureciam as donas de casas. uitas vezes, as bestas e os burros emburricavam, ficavam empacadas, exigindo do condutor muitos berros e habilidades agressivas.
A companhia possuía dois serviços. Transportava passageiros e também cargas. O carro de carga ficava sempre na rua do Rosário, em frente onde depois foi construído o edifício Elisa.
O maior inimigo da companhia eram os garotos que sempre estavam espantando os burricos ou então desbrecando os carros quando os condutores desatrelavam os burros para o devido descanso. Num desses acontecimentos que ficou para a história consta que os meninos Luiz Rivelli, João Aieta e Tuturo Copeli soltaram um carro que desceu veloz, entrou pela casa de um morador (Nepomuceno de Andrade) que estava lendo o jornal Correio Paulistano. Paredes desabaram, telhas caíram, as madeiras dos telhados foram arremessadas para fora da casa. Foi considerado o maior desastre que Jundiaí sofreu no século XIX.
A companhia, diante de tantas perseguições e acidentes provocados por terceiros, faliu em 1897. Seus bens foram arrematados e viraram sucata.