Mistérios e destinos de Jundiaí

Não vai longe o tempo em que a fundação de Jundiaí esteve cerca por mistérios.

De uma certa forma, ainda está. Isto porque até agora não foram esclarecidas as dúvidas sobre os verdadeiros personagens de sua fundação.

Há duas versões: a primeira que o município foi fundado por Petronilha Antunes e Rafael de Oliveira. A segunda versão envolve seu filho, Rafael de Oliveira, o Moço, que teria sido, juntamente com sua esposa, Maria Ribeiro, os fundadores.

Durante muitos anos, aceitou-se a versão de que Petronilha Antunes e Rafael tinham sido os verdadeiros fundadores. E isso teria acontecido em 1.615, tanto que a data está assinalada na Bandeira de Jundiaí.

Em 1960, começou a circular uma outra versão. Os verdadeiros fundadores tinham sido 250 pessoas, 38 descendentes diretos de portugueses, e cerca de 220 índios, que saíram da Vila de São Paulo. Aqui chegaram em 1640. Existem citações históricas da data da fundação me 1639, porém, neste ano Rafael e Maria Ribeiro casaram-se em São Paulo. Vieram sob a chefia de Rafael de Oliveira, o Moço.

Existem testamentos de Rafael de Oliveira, o Velho, destacando seus pertences, seu sítio e seus filhos. Rafael de Oliveira, por diversos documentos encontrados por pesquisadores, foi citado como bandeirante. Em 1615 estaria com uma Bandeira no sul do País; se ele estava com esta Bandeira, não estaria em Jundiaí.

Então, quem seria Petronilha? Ela teria sido esposa de José de Camargo Antunes, comerciante em São Paulo. Foram encontrados dois ramos da família Antunes; um da própria Vila de São Paulo; outro de Santana do Parnaíba. Teria vindo a Jundiaí com Rafael de Oliveira, o Velho, seu compadre. Aí entram duas outras versões: Rafael teria assassinado seu marido e fugido para os Sertões de Jundiaí com sua comadre. Aqui teriam iniciado a construção da Vila de Jundiaí.. A segunda versão envolvendo o casal surgiu recentemente. Ambos estariam envolvidos na famosa briga entre as famílias Pires e Camargo.

Mas o mistério continua. Segundo o jornalista Benedito de Paula Certain, existem documentos que provam que mesmo antes da chegada de Rafael de Oliveira, Pedro Jorge e Francisco Gaia estariam formando povoamentos além do Pico do Jaraguá. Provavelmente, Certain referia-se a um povoamento de garimpeiros na região de Cajamar, onde teria sido descoberta uma grande quantidade de ouro e provocado o enriquecimento extraordinário da família Sardinha.. Também a referência de Certain tem sido colocada em dúvidas.

Certain teria ainda afirmado que Rafael de Oliveira (1572-1648) era vereador na pobre Vila de São Paulo no século XVll e participou de diversas bandeiras, rumo a Santa Catarina em 1615 e a Minas Gerais por diversas vezes. No entanto, documentos provam que Rafael de Oliveira contraiu núpcias em 1616 com Catarina D’Horta na mesma Vila de São Paulo, onde faleceu. Se ele estava envolvido com bandeiras e casamento, fica evidente de que não teria fugido para Jundiaí em 1615.

Se foi bandeirante, Rafael de Oliveira teria cometido o crime de bandeirantismo, o que seria punido pela legislação daquele tempo e principalmente pelos padres Jesuítas, do Páteo do Colégio, que não admitiam a escravização de índios.

Segundo a tradição oral dos antigos habitantes de Jundiaí, haveria no frontespício da igreja matriz a indicação de que Rafael de Oliveira e Petronilha tinham sido os fundadores da Vila. Segundo essa mesma tradição oral, o registro estaria no Livro do Tombo da Cúria Metropolitana em São Paulo. Mas como a Cúria pegou fogo em 1848, não existe a comprovação.

Duas outras tragédias sobre sua história marcaram o município. O historiador Pedro Taques escreveu um livro sobre as famílias que fundaram Jundiaí, denominando-o Memórias de Jundiaí. Há várias referências sobre esse trabalho do escritor. Parece que foi perdido no terremoto que destruiu Lisboa em 1757, quando ele tentava obter o reconhecimento de seus trabalhos junto ao rei. Outra documentação perdida estava em poder do sacristão da igreja matriz. Morreu sem que seus descendentes e as autoridades a encontrassem.

Há também uma versão atual, segundo a qual Rafael de Oliveira, o Velho, indicou ao seu filho o local onde deveria ser construída a Vila de Jundiaí. Ali existiria um antigo casebre construído por Rafael de Oliveira nos idos de 1625.

As versões não acabam aí. Marcada por ter sido fundada por dois criminosos, fugidos da Vila de São Paulo, moradores de Jundiaí trataram de destruir os antigos documentos. Naqueles tempos antigos, Jundiaí era citada como cidade dos amantes e dos amásios. Portanto, era preciso tirar essa versão da memória das pessoas. O caminho foi a destruição dos documentos.

Hoje, a versão mais aceitada, mesmo porque comprovada documentalmente, Rafael de Oliveira, o Moço, e sua esposa, foram os verdadeiros fundadores. Aqui tiveram seus filhos, a prole cresceu e ambos contribuíram decisivamente para solidificação de sua fundação.

O ano de 1640 é marcado em São Paulo por excepcionais acontecimentos. O primeiro deles foi a expulsão dos padres jesuítas da Vila. Consta que os fazendeiros tentaram muitas vezes convencer os padres do Páteo do Colégio de que a prosperidade de São Paulo dependia da mão-de-obra indígena. E que, portanto, era necessário contar com os índios. Os padres eram contra, porque baseavam-se nas informações de São Paulo, em suas famosas cartas, onde descrevia sua contrariedade contra as ordens das autoridades do Sinédrio – o mais alto posto da hierarquia dos judeus – que ordenava que os gentios fossem também circuncidados. Entendia Paulo que essas ordens deveriam ser atendidas pelos judeus, não pelos gentios que eram gente de outra formação. “Os gentios não são escravos do judaísmo”.

Assim os jesuítas consideravam a situação. “Nada de escravos no Planalto de Piratininga.” Cronistas da época narram outra história. Os fazendeiros tinham seus índios para serviços gerais. Mas não os denominavam escravos. Num censo feito na época, diziam que possuíam trabalhadores amigos, pessoas da casa, quase filhos. Esses índios construíam casas, faziam móveis, erguiam cercas, reformavam casas, domavam animais. Segundo os fazendeiros, eram livres. Mas assim não entendiam os jesuítas e as desavenças começaram a tomar vulto. Os fazendeiros se reuniram e no dia 13 de junho de 1640 os expulsaram. O acontecimento chegou ao Vaticano e o Papa mandou excomungar todos os fazendeiros da Vila de São Paulo. Aparentemente, a excomunhão era uma condenação que os católicos mais temiam. Em São Paulo, os moradores continuaram a viver a mesma rotina, nem por isso sem os alvoroços de grupos, principalmente de origem espanhola.

Neste mesmo ano, aconteceu a libertação de Portugal do jugo do império espanhol. Este acontecimento vai modificar em profundidade a relação do Brasil com a metrópole. Como existia em São Paulo um grupo de pessoas de origem espanhola, muitas delas vindas de Assunción, no Paraguai, os portugueses tomaram uma decisão: firmar o conceito da permanente liberdade da Espanha, e ao mesmo tempo juraram plena fidelidade ao Rei de Portugal. Assim pressionados pelos ânimos, os espanhóis resolveram tomar uma derradeira atitude. Em manifestações públicas, aclamaram Amador Bueno como o Rei de São Paulo. Tarimbado e conhecendo as tricas e futricas da política, Amador recusou o título. Ameaçado pelos espanhóis, refugiou-se no Convento São Bento. Depois partiu para o litoral, onde esperou os ânimos se acalmarem.

A presença de espanhóis na Vila de São Paulo gera várias especulações. O que estariam fazendo eles aqui. Em geral, eram pessoas vindas de Assunción. Conclusões mais recentes indicam que eram judeus, fugidos da persseguição da Inquisição que havia se instalado no Paraguai, sob as ordens das autoridades eclesiásticas de Madri. O fato deles estarem em São Paulo e aclamado Amador Bueno rei da província nos leva a acreditar que os judeus espanhóis ou paraguaios tentavam dominar uma região longe dos olhos inquisitoriais da igreja católica.

A fundação de Jundiaí, portanto, pode ter outra origem. Os fundadores poderiam estar agastados com a expulsão dos jesuítas e resolveram entrar para o interior, onde pretendiam fundar uma vila libertária, cultuar a religião nos moldes dos jesuítas, longe dos fuxicos de São Paulo. Também estariam fundando uma vila onde poderiam fazer o que bem entendiam, longe das autoridades portuguesas, inclusive caçar índios e vende-los depois para as mais diversas regiões do Brasil. Era um negócio rendoso.

Existem, porém, informações que não corroboram essas insinuações. Parece que a vila de Jundiaí teve desde o início o respaldo das autoridades portuguesas e paulistas. Reorganizado, ganhando autonomia, depois de sessenta anos vinculado ao Reino da Espanha, estava agora Portugal interessado em conquistar o interior do continente. Já existia estrada ligando o litoral até Assunción, e de lá até as terras peruanas. Havia terras a conquistar e bastava um marco para que o império português reconhecesse a propriedade.

O próprio Rafael de Oliveira teria sido descendente de judeus e foi convertido na grande onda de conversões impostas pelo rei de Portugal. A história nos conta que o rei tentava por todas as maneiras fazer a conversão dos judeus para o cristianismo. Não o conseguindo por bem, teria dado um prazo. Os judeus portugueses se reuniram no porto de Lisboa com todos os seus pertences carregáveis. Alguém deve ter esclarecido ao rei que a saída dos judeus representava uma sangria muito acentuada nos cofres do imperiais, porquanto eles tinham ligações com os originários de sua raça em todo mundo. Foram os judeus venezianos que haviam financiado a viagem de Pedro Álvares Cabral e inclusive a construção de navios. Sem eles, portanto, Portugal teria muito a perder. O rei resolveu então fazer a conversão coletiva e mandou batizá-los no porto. Deste modo satisfazia as autoridades eclesiásticas e ficava de bem com o povo judeu.

Na conversão coletiva, muitos tiveram os nomes trocados. Assim os Oliveira, os Carvalho, os Macieira, os Pereira e tantos outros com sobrenome de árvores ou de frutas eram judeus convertidos. Eles infestaram a costa brasileira para terem uma vida mais tranqüila. Provavelmente, eram cristãos só da boca pra fora.

A família Oliveira fazia parte dessa imensa onda de refugiados ao longo da costa brasileira. Eram exímios comerciantes e contumazes garimpeiros. Em quase todas as descobertas de ouro no Brasil vamos encontrar os descendentes de judeus. O ouro, em princípio era o bem mais procurado. Depois, surgiram também as pedras preciosas. Tanto o ouro como as pedras preciosas eram fáceis de carregar. Assim, diante de uma ameaça ou de uma perseguição policial ou religiosa, os judeus carregavam seus bens ou todo o patrimônio com facilidade. Não se ligavam muito às propriedades imobiliárias, como faziam os portugueses puros.

Ainda no século XXl vamos encontrar muitos judeus no ramo de ouro e pedras preciosas. Praticamente, dominam as exportações desses bens e onde exista uma mina contendo minerais nobres, sempre haverá um judeu interessado em sua exploração.

Na velha Vila de São Paulo vamos encontrar os judeus cristianizados trabalhando ao lado dos portugueses. Pagavam o quinto ao Governo, que seria 20% da renda gerada com seus negócios, sonegavam o que podiam sonegar, fomentavam rebeliões contra os aumentos desses mesmos impostos, financiavam bandeirantes e emprestavam dinheiro aos comerciantes. Levavam vida austera. Alguns deles até participavam de reuniões secretas. Chegaram até mesmo a renegar a moeda portuguesa, o que levou o Ouvidor a fazer sérias admoestações aos moradores da Vila de São Paulo e de Jundiaí.

Em 1655, a vila de Jundiaí conquistaria a autonomia. No grande interior do Estado de São Paulo ela foi uma das primeiras a receber esse reconhecimento. As primeiras povoações de São Paulo que conquistaram o reconhecimento de vilas, antes de Jundiaí, foram Mogi das Cruzes em 1611, e Santana do Parnaíba, em 1625. Surgiram a seguir Taubaté em 1643. Já em 1651 foi aprovado o reconhecimento de Guaratinguetá, e em 1653, Jacareí. Depois foi a vez de Itu, em 1656, e Sorocaba, em 1661. Com o reconhecimento de Vila, Jundiaí recebeu duas notáveis instituições, a Câmara de Vereadores e o Cartório, que normatizaram as relações entre os homens. Essas duas instituições iriam influenciar a vida na Vila pelos anos porvindouros. As atas da Câmara de Vereadores de Jundiaí, intactas até hoje, representam o mais importante arquivo de atos públicos e privados praticados na Vila, cujo território era imenso e ia até as barrancas do Rio Grande e não tinha limites conhecidos na vastidão do seu território. Houve época em que vereadores de Jundiaí estavam fazendo correições em território de Minas Gerais, provavelmente sob as ordens do Ouvidor em São Paulo.

Campinas, Mogi das Cruzes, Mogi Mirim, Caconde e Franca foram as vilas mais conhecidas fundadas por jundiaienses. E agora podemos afirmar que Goiás Velho, antida capital do Estado de Goiás, foi fundada por jundiaiense. O próprio Bartholomeu Bueno da Silva, o Anhangüera, possuía terras na região de Jundiaí. Sua bandeira foi formado por jundiaienses. É considerado em Goiás o fundador do Estado e recebe inúmeras homenagens. Ao lado de Goiânia, existe uma vila-cidade com o nome de Jundiaí, provavelmente em homenagem aos fundadores.

Pouco antes de 1640, ali por volta de 1630, a vila de São Paulo era o maior aldeamento de índios das Américas. De onde tinham chegado tantos índios? Da região de Guairá, no sul do País. Conta a história que Raposo Tavares e Manuel Preto fizeram uma incursão àquela região para capturar índios aculturados, isto é, domesticados, prontos para trabalharem nas fazendas paulistas.

Relatórios dos padres jesuítas que sobreviveram ao ataque dessa dupla de bandeirantes queixam-se da violência empregada na captura desses índios. Eles aplicaram o sistema de terra arrasada. Colocaram fogo nas igrejas, nas casas, nos pavilhões erguidos pelos padres jesuítas espanhóis e trouxeram para São Paulo de 30 mil a 50 mil índios. De outra feita, isso por volta de 1633 atacaram a aldeia de Tape, e também arrasaram tudo o que encontraram e fizeram grande apreensão de bens e de índios, aumentando desmesuradamente o número de indígenas na vila paulista.

Naquele tempo, os índios eram considerados patrimônio, tinham algum valor de acordo com a idade, saúde e domesticação. Eles serviam de dote por ocasião dos casamentos, podiam também entrar na transação de qualquer bem, como, por exemplo, troca de terras por tantas peças indígenas. Eram exportados para outras partes do País e rendiam, portanto, muito dinheiro.

É sabido que na missão de aprisionamento de índios da região do Guairá, ficaram na vila de São Paulo apenas 25 brancos e alguns índios, tal era a sanha dos habitantes na busca de bens. Cerca de 400 brancos e mais 2 mil índios embarcaram nesta aventura da dupla Manuel Preto e Raposo Tavares.

A notícia desse aprisionamento de índios chegou à Europa, através de dois padres espanhóis, que estavam em Guairá. O relatório que apresentaram foi dramático. Eles não entendiam como a civilização dos portugueses, debaixo do mesmo teto da Santa Igreja Católica, pudesse ter construído monstros desalmados, que matavam e escravizavam sem piedade.

No meio desse movimento estava a resistência dos oito padres do Páteo do Colégio, que só tinham uma arma: ameaçar de excomunhão os líderes do movimento. O companheiro de Raposo Tavares, Manoel Preto, foi depois morador de Jundiaí, e consta um pedido de terras para que construísse uma casa. Tudo leva a crer que Jundiaí iria fazer parte do esquema dos paulistas. A idéia provavelmente era formar novos aldeamentos, perto de São Paulo, de onde os paulistas pudessem buscar as peças que necessitavam para vende-los no rendoso negócio da escravidão.

Além desse negócio de escravos, poderia pairar a iniciativa dos portugueses de enfraquecer o império espanhol na América do Sul, através da destruição de suas iniciativas. Na Europa, a Espanha havia se enfraquecido acentuadamente, devido às guerras com seus vizinhos. Na época da separação de Portugal, não tinha mais condições de continuar as suas lutas guerreiras. Era, portanto, o momento oportuno de Portugal agir juntamente com outros impérios que não desejavam o fortalecimento da Espanha neste lado do mundo.

Tudo leva a crer que as autoridades portuguesas faziam vistas grossas às reclamações dos padres espanhóis. O pedido de providências feito ao governador geral em Salvador não surtiu efeitos práticos. Os portugueses também não tinham condições logísticas de atacar São Paulo para colocar os bandeirantes sob as ordens de Portugal. Era mais recomendável tê-los como aliados do que como inimigos. Além disso, nesta época, estavam aparecendo sinais da descoberta de ouro em diversas regiões do Brasil. E a ordem, portanto, era manter a amizade com os paulistas. Havia também uma outra razão: os portugueses chegaram à conclusão de que os paulistas tratavam bem os índios. Como eles passaram a ser peças de valor, portanto, rendosos, não havia razão para acreditar em maus tratos. Uma peça sadia valia mais do que uma peça doente e muito menos morta. Se os ataques eram feitos contra os aldeamentos espanhóis, tanto melhor para Portugal. O império português sabia lidar contra as situações mais inusitadas. Tinha que apelar para a diplomacia, para os tratos e destratos dos bastidores, fazer vistas grossas para tantos acontecimentos, uma vez que não possuía forças armadas suficientes para encetar movimentos de tropas, além do mais longe, no além mar.

A igreja católica nascente em São Paulo estava dividida. De um lado estavam os padres jesuítas,do Páteo do Colégio, e de outro, os padres beneditinos, do Largo de São Bento. A orientação dos jesuítas provinha de seu fundador, Ignácio de Loiola, espanhol, mas que tinha fortes raízes em Portugal. Ele era tio de José de Anchieta, fundador de São Paulo, e era natural, portanto, uma relação de amizade e de ideologia religiosa. Tio e sobrinho mantiveram durante certo tempo farta correspondência. A influência do fundador da Ordem dos Jesuítas em São Paulo, através de José de Anchieta, tinha origens emocionais diretas, por causa dos assuntos de família, do passado e da constituição da própria família de José de Anchieta, cuja mãe, era hebraica de nascimento.

Anchieta era homem de compleição franzina. Sofria fortes dores na coluna e também era debilitado por insidiosa doença pulmonar. Andava meio arqueado e isso desde a juventudade. Quando foi estudar no Porto, seus superiores viram nele um prodigioso garoto na arte de entender as línguas. Tinha facilidadeds com o hebraico e com o grego, línguas importantes do passado e com forte influência na igreja católica. Dominava o latim com facilidade. Seu pai, homem considerado culto, tinha estado na Grécia e conheceu bgem o idioma. Sua mãe, judia de nascimento, ensinava em casa a língua de seus ancestrais. Portanto, Anchieta sofreu a influência de três línguas, o que lhe iria ser de importância fundamental quando foi o responsável pela conversão dos índios ao cristianismo nos primórdios da vila de São Paulo.

Por causa de sua doença pulmonar, foi sugerido que ele viesse passar uns tempos nos trópicos. O clima em Portugal trazia pertinazes problemas para aqueles que tinham dificuldades com o sistema respiratório. Sua própria família considerou a orientação correta. Deste modo, Anchieta deixou s Portugal e se embrenhou na grande aventura de Portugal, que era a conquista de terras no além-mar. Nesta época era apenas um rapazinho de aproximadamente 19 anos. Cinco anos depois recebe a incumbência de fazer uma missa no Planalto de Piratininga.

Como tinha facilidades com as línguas troncos da naqueles tempos, teve facilidade em aprender o tupy-guarany. Elaborou o dicionário tupy-guarany, elemento de importância fundamental nas relações dos portugueses com seus nativos. Deste modo, conseguia ensinar os índios em sua própria língua. E depois passou a ensiná-los o português. Com seu teatro, ao desenvolver peças teatrais, conseguiu também introduzir entre os índios o entretenimento intelectual. Suas peças fizeram sucesso, pois ele introduziu a linguagem tupy-guarany aos seus personagens e mais tarde o português. Conseguiu desenvolver um meio de educar e de divertir.

Quando se dizia que os índios estavam educados e civilizados, é porque a cukltura desenvolvida por Anchieta na arte de educar e de introduzir nos trópicos o ensinamento de Jesus, tinha tido sucesso.

Uma boa parte dos índios que vieram para Jundiaí na missão de fundar uma vila tinha sido domesticado e recebido instruções no Colégio dos Jesuítas. Mas a maioria ainda continuava a conhecer apenas a língua natal.A introdução das cavalgadas, da arte de domar os animais e de adestramento dos cavalheiros foi o ponto principal da permanência dos índios na vila, porquanto eles adoravam os cavalos e as mulas.

Assim sendo, a vila de Jundiaí não era um centro inculto, como na época da fundação da vila de São Paulo. O Colégio dos Jesuítas no Páteo do Colégio teve grande influência na formação cultural e política do Estado de São Paulo. não obstante o tempo em que ficou fechado por ordem dos fazendeiros paulistas.

Ao receber a Câmara de Vereadores e o Cartório, a vila de Jundiaí dava um passo importante para se consolidar no grande interior. Quando mais tarde seus habitantes começaram a ir mais para o interior, em busca de ouro e prata, as bases jurídicas para a formalização da posse da terra já estavam amplamente apoiadas pelo cartório, enquanto em outras vilas ainda ia demorar muito para que isso acontecesse. Algumas delas levaram mais de cem anos para obterem essas conquistas.

De vez em quando, por falta de pesquisas ou de exames mais acurados dos livros publicados sobre a fundação e origem de Jundiaí, aparecem na Câmara de Vereadores debates sobre qual teria sido a data correta que assinala o início da Vila. Em 2008, houve mais uma vez esse debate. Algumas pessoas, que ocupam posição de liderança no comércio da cidade, queriam mudar a data para 28 de março, que efetivamente, essa seria a data da fundação. Ora, a Câmara agiu corretamente ao manter a data da fundação em 14 de dezembro, que é a correta Em 1865, por lei provincial de 28 de março, Jundiaí passou da categoria de Vila para a de município.

A partir do reconhecimento da Vila em 1655, vamos encontrar diversos pedidos de reconhecimento de títulos de propriedade. O primeiro deles, de João Leme do Prazo, que foi vereador na vila nascente, dizia que era casado com a filha do primeiro povoador, Ana Maria Ribeiro. Ora, Ana Maria era filha de Rafael de Oliveira, o Moço, e de sua primeira esposa Maria Ribeiro. Se João Leme do Prado tinha essa alegação é porque efetivamente a Vila tinha sido fundada recentemente. Também encontramos em outros pedidos de reconhecimento da posse da terra de moradores que afirmaram que tinham vindo com o primeiro povoador, há uns 17 ou 18 anos. Portanto, se essas cartas eram de 1657 ou de 1658 e a alegação era de que vieram com o primeiro povoador, parece não haver dúvidas de que Jundiaí foi realmente fundada em 1640.

E como também esses pedidos eram de terrenos localizados nas biquinhas das ruas do Rosário e São Bento, acredita-se que o núcleo inicial tenha se iniciado nesta área. Vamos encontrar referências a essas biquinhas nos séculos porvindouros, e inclusive em 1.900, quase 250 anos depois.

O que tem levado algumas pessoas a quererem mudar a data da fundação tem objetivos meramente comerciais. Segundo alegações dessas pessoas, a data de 14 de dezembro, feriado municipal, prejudica o comércio, fazendo com que compradores saiam da cidade para São Paulo ou Campinas. Ora, o bom senso precisa prevalecer. A História não pode ser manipulada, como se fosse apenas um objeto de armazéns de secos e molhados, como existia antigamente. O dia 14 de dezembro já está marcado na vida de Jundiaí, acreditamos que definitivamente. Existem documentos comprobatórios.

O grande enigma de Jundiaí foi a colocação em sua bandeira da data de 1615. Outro enigma é a presença de Petronilha Antunes. Quem a colocou na história?

Na administração Luiz Latorre, que foi prefeito de Jundiaí no período 1/1/1952 a 31/12/1959 foi constituída uma comissão para dar a apalavra final à controvertida questão dos fundadores e data de sua fundação. O trabalho foi impresso pela Prefeitura um livro, intitulado Elementos para a História de Jundiaí, mas se encontra totalmente esgotado. Depois, no final da década de 1960, os Professores Nelson Foot e Armando Colaferri publicaram um livro denominado Em Torno da Fundação de Jundiaí, mas esse trabalho reafirmou a versão inicial de que Rafael de Oliveira e Petronilha Antunes tinham sido os verdadeiros fundadores do município.